Um autor defunto em… Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas é um clássico da literatura brasileira que eu nunca havia lido. Mas seguindo nosso cronograma do Clube de Leitura 2020, esse mês foi dedicado a essa obra.

Esse livro foi lançado em 1881 e inaugura a fase realista de Machado de Assis, apesar de ser um romance que aborda mais a questão psicológica do personagem do que faz críticas sociais. Não que isso também não seja abordado, afinal é uma obra realista, mas não me parece que seja esse o foco.

E que livro surpreendente! Esperava que fosse um livro monótono e de linguagem muito rebuscada, mas a escrita de Machado de Assis me deixou encantada!

O texto é cheio de ironias, sátiras, trocadilhos, personagens de caráter duvidosos, diálogos inteligentes e trechos que falam especialmente com o leitor. Isso tudo me impressionou!

Outra coisa interessante é que as memórias de Brás Cubas não são narradas seguindo uma ordem cronológica clara dos eventos. Ele começa falando sobre sua morte, seu enterro, depois volta para infância de Brás Cubas e segue narrando eventos importantes até voltar ao ponto inicial: ele está morto.

Pode parecer confuso, mas o resultado no livro é muito bom! Eu realmente me senti como se estivesse lendo um diário, onde a pessoa não só narra os acontecimentos da sua vida, mas também seus pensamentos e suas divagações.

Antes de continuar preciso lembrar que, por se tratar de um clássico tão conhecido, já existe muita resenha, análises e discussões profundas sobre isso aqui na internet. Porém, aqui o meu foco será nas partes que mais chamaram a minha atenção, ok? Até porque nem sou especialista no assunto.

Sem mais, vamos aos destaques.

Um autor defunto em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Imagem do Filme. Fonte: Canal do Ensino.

Dedicatória

"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas."

Acredito que essa seja a frase mais famosa desse livro! E eu não canso de admirar a construção dessa frase. O defunto autor fez a dedicatória que combinava com ele mesmo e com a sua história. Essa frase realmente mostra o tom do livro.

O defunto autor: Brás Cubas

Brás Cubas está morto. O principal personagem da história, o narrador, aquele que conta suas memórias e conversa com o leitor, escreve seu livro do além.

E quando falo que o dono dessas memórias conversa com o leitor, é porque, em vários momentos, você se depara com textos realmente voltados para o leitor, como esse abaixo:

"Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho."

Sobre Brás Cubas em si, de maneira resumida, podemos dizer que ele era de família rica, mimado, criado com muitas regalias e que nunca precisou trabalhar na vida. Mas, na velhice, percebeu que queria experimentar a “glória atemporal”, fazer algo importante. Foi quando ele criou que deveria ser o “famoso Emplasto Brás Cubas”, um tipo de medicamento.

Esse estilo de vida, sem grandes necessidades, criou um homem medíocre, que não se tornou exemplar em nada, nem construiu coisa alguma durante sua vida. Quer dizer, ele tinha todas as condições para se tornar alguém grande, importante, mas não conseguiu atingir a “glória”.

Nem família, nem negócios, ele não conquistou nada. E esse fato se traduziu no trecho que fecha o livro e que traz o balanço da vida do personagem.

"Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
Um autor defunto em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Fonte: Cinematologia

As histórias de Brás Cubas

Na história de Brás Cubas também conhecemos muitos personagens que merecem ser mencionados.

Uma das histórias mais interessantes da sua juventude foi o romance com a jovem Marcela, praticamente uma prostituta, linda e extremamente interesseira. Ela só se importava mesmo com os presentes que recebia. Foi em função desse romance que ele disse essa outra frase famosa:

"Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos."

Já na idade adulta, Brás Cubas se tornou amante de Virgília, com a qual chegou a negociar um casamento, mas ela optou por casar com Lobo Neves, que seria ministro. O romance entre eles começou mesmo depois do casamento e durou anos.

É interessante notar como no início eles tinham receio de serem descobertos, mas depois de um tempo pararam de se importar tanto com as fofocas e a possibilidade de serem pegos. Ou seja, perderam a vergonha na cara. Ambos fingiam muito bem, mas Virgília era uma verdadeira atriz para desconversar a traição do marido.

Não estou dizendo que o problema era só o comportamento dela, tá? Mas quem tinha um compromisso, um casamento, era ela. E vocês precisam ver como ela fingia bem na história. Obviamente, Brás Cubas não ficava muito atrás, mas ele não era casado. Vale lembrar que trair não é legal.

Brás Cubas até teve pretendentes a esposas, mas nenhuma delas deu certo. Antes de conhecer Virgília, ele conheceu Eugênia, que era coxa, manca, fato que o fez interromper o avanço das coisas.

"Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?"

E enquanto estava com Virgília, Brás Cubas conheceu Eulália, a Nhã-loló, que acabou morrendo de febre amarela posteriormente. Ou seja, ele não teve muita sorte no amor e preferiu continuar sustentando um caso de amor, sem futuro, com uma mulher casada.

Um trecho que me chamou bastante atenção no livro é o que narra o encontro de Brás Cubas com Prudêncio, ex-escravo e agora seu empregado, que espancava seu próprio escravo. Se Brás Cubas não tivesse interferido, talvez o escravo até tivesse sido morto.

Quando era criança, Brás Cubas fazia Prudêncio sofrer muito com suas brincadeiras, tratando-o como um animal. Ele foi uma criança terrível. Porém, agora que era livre, Prudêncio continuou o ciclo de violência, e abusava de seu próprio escravo. Quantas vezes continuamos ferindo outras pessoas da mesma forma que nos feriram?

"Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas - transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desencava-o sem compaixão, ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera."

Outro personagem interessante da história é seu amigo Quincas Borba. Sim, aquele mesmo desse outro livro do Machado de Assis. (Nunca li a obra, mas amei esse crossover.)

Quincas Borba apresenta para ele o “humanitismo”, um sistema filosófico que, muito resumidamente, te auxilia a lidar com os problemas do mundo e destrói a dor, na medida que te ensina a enxergar os benefícios das dificuldades.

A ironia da situação é que Quincas Borba possui um problema sério: ele está em estado de semidemência. Mas antes de saber disso, Brás Cubas aprende mais sobre humanitismo, sendo que alguns trechos dessa explicação chegam a ser engraçados, como esse abaixo.

"Quanto ao Quincas Borba, expôs-me enfim o Humanitismo, sistema de filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas."
Um autor defunto em Memórias Póstumas de Brás Cubas
Fonte: Banco de Conteúdo Culturais

A evolução dos personagens

No fim da vida, já lá para os seus 60 anos, Brás Cubas encontra com vários personagens que fizeram parte da sua história, incluindo os que foram citados anteriormente.

Aqui é interessante notar as mudanças pelas quais passaram esses personagens, cujo término de todos nem foi tão explicado. Mas assim é a vida, né? Você convive com alguém e depois de um tempo, quando encontra essa pessoa novamente, percebe como as coisas mudaram, e às vezes é para pior.

O que aprendi com essa leitura?

  • Cheguei a conclusão que às vezes a multidão tem razão. Esse livro é realmente muito bom! Quando na sua vida você se deparou com um livro escrito da perspectiva do personagem morto? Só Machado de Assis mesmo…
  • É interessante perceber que todos nós temos potencial para terminar a vida exatamente como esse personagem. Sem deixar nenhum legado, sem construir nada. Uma vida comum, de um personagem que, apesar de muito rico, em essência, poderia ser qualquer um de nós.
  • A língua portuguesa é um instrumento de arte nas mãos daqueles que sabem utilizá-la, como Machado de Assis. Além da história da vida de Brás Cubas, os pensamentos do personagem sobre seus funerais e a morte são muito interessantes de serem lidos.
  • Tudo fica mais interessante com uma boa dose de humor, ironia e um pouco de sarcasmo. Esse livro seria totalmente diferente se o autor não tivesse usado esses elementos. E não seria tão legal.
  • Todo mundo deveria ler esse livro. Se você não leu, por favor, inclua na sua lista!

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Curiosa, apaixonada por livros e completamente consciente de que ainda tem muito a aprender. Acredita que a educação e o trabalho não apenas libertam, mas também te fazem transbordar. E isso está ao alcance de todos.

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